Doze girassóis, doze vidas cortadas, alegria aprisionada na jarra da vida.

Doze vidas que se extinguem, lentamente, inexoravelmente.

Os amarelos de Van Gogh, daltonismo para alguns, alegria para a minha alma, esvaem-se neste quadro, empalidecidos, tristes, aprisionados.

Distantes do campo onde cresceram, adquirem a tristeza da liberdade perdida, voltam-se para o chão da vida, obedecem passivos às leis da jarra, as leis dos homens.
Assim é a arte, assim é a vida.

Ainda assim, há os que resistem; os que recusam a palidez e assumem, altivos a pose do vencedor.
No entanto, tudo é efémero e a morte triunfará; em breve serão pó.

O amarelo dará lugar à cinza.

Mas o mundo persistirá; com novos girassóis e novas prisões; novos amarelos dos campos de Van Gogh. Por mais que o mundo os agarre, os oprima e os vença, os girassóis resistirão.
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Como dizia Pablo Neruda, “a primavera é inexorável!”.
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Texto de Zeus



...reza a história que....
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Dejanira, a terceira esposa de Hercules, havia sido prometida ao deus do rio Aqueloso, no entanto, Hercules derrotou-o e assim ficou com a sua amada.
Ao tentar deixar Calidon, Hercules e Dejanira não conseguem atravessar o rio que se encontra em fúria.
Assim, Nesso centauro, oferece-se para ajudar a bela mulher a ir para a outra margem. Contudo, leva-a, mas não volta para ajudar Hercules, tenta fugir com Dejanira.
Hercules, furioso, luta com Nesso ferindo-o.
Por sua vez, Nesso no leito da morte, oferece à esposa de Hercules a sua veste ensanguentada dizendo tratar-se de um talismã capaz de trazer de volta os maridos infiéis. Assim, quando Dejanira desconfia da fidelidade de Hércules, dá-lhe o robe de Nesso para que este o vista, originando deste modo a sua morte terrena.
Os trabalhos de Hercules asseguraram-lhe a imortalidade no Olimpo, assim assumiu o seu lugar junto aos Deuses imortais.
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...o que me transmite o quadro...

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Nesso,
fuga
liberdade
luta, luta por algo que se quer muito
luta sem medo
risco
risco de vida
risco incessante
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não conhece o medo
nem o aprisionamento e o conformismo
apenas a esperança da felicidade, a coragem!
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Dejanira,
Tormento
aflição
aprisionameto
medo
terror




Nota Prévia – Por diversos motivos, abster-me-ei de fazer qualquer interpretação formal, tanto histórica como artística. Limitar-me-ei a expor as impressões, sensações e emoções que esta soberba obra de arte me provoca. O que escreverei nada tem de “verdade” ou de “cientificidade”. Apenas o que vejo e sinto…

1- Duas mãos que se aproximam, suave e lentamente; ser criador e ser criado, Deus e Adão, Homem e Deus, uma junção desigual, dois seres inigualáveis, juntos numa aproximação ao mundo dos sentidos.

Um dedo indicador prestes a tocar o outro; o momento sublime de dois corpos que antecipam a magia do toque; vontades suaves de transcendência; a ânsia do toque físico que completará a unidade já formada pelo Espírito. O humano completará o divino que sempre existiu, no domínio intemporal do sagrado.

O amor completado pelo toque; o sagrado e o mundano unidos pelo acto da criação; a perpetuação da vida através do toque.

Dois seres, duas dimensões… um ponto de contacto… o toque que se adivinha e não precisa existir… a unidade estabelecida… a ordem do cosmos em duas mãos que se unem.

2- Afastemos agora um pouco o olhar:


O velho de barbas brancas com o qual Miguel Ângelo inaugurou a nossa imagem de Deus; o homem, o pintor, o assalariado, criou o Deus que a humanidade venera; o criador criado pelo operário. Adão, o antepassado do homem, ao mesmo tempo criado e criador. Despido, ingénuo, ele é o verdadeiro todo-poderoso, o centro do Universo.

Adão é a imagem serena de um homem submisso; no entanto, o seu peito está cheio de força; o seu poder, criador e destruidor, sobrepor-se-á ao velho de barbas brancas.

Por trás do homem das barbas brancas há outros seres; olhar inquieto e formas indefinidas: o medo de não ser, de não existir; em breve serão humanos e tomarão a serenidade do rosto de Adão. A serenidade de existir, o corpo completo, a dimensão física que os levará ao paraíso da vida; dos sonhos e sofrimentos; do mundo sagrado do humano.

3- Um pouco mais ao longe…

Adão e Deus (sagrado e profano na unicidade do humano) rodeados de vida.
Acima da criação de Adão, a criação de Eva e a Expulsão do Paraíso. Imediatamente abaixo, Deus separa a terra da água e, logo a seguir, a criação do Sol, da Lua e dos Planetas.

O homem, centro do cosmos, vê-se rodeado do profano que o criador lhe ofereceu. O mundo já não é o paraíso celestial; é carne, é vida, é concreto, material.

O homem, ser criado, deixará em breve de ser submisso; agora, tudo lhe pertence. A sua força transformará a criação.

De ambos os lados, os profetas, homens também eles, testemunham a partilha de poder e a afirmação do mundo nas mãos do ser humano.

4- E a obra do mestre completa-se:


À medida que nos afastamos do centro, a imagem de Deus altera-se; o tom é de ira – o dilúvio. A ira de Deus manifesta-se poderosa e vingativa. Os homens já não são os seres ingénuos e belos da imagem de Adão.


Na mente do Mestre, estava a vontade de gritar contra a esses homens que destruíram a beleza. Um dia, o papa sugeriu a Miguel Angelo que ornamentasse a pintura com cores vivas e tons dourados. O Mestre respondeu que os patriarcas e profetas não foram homens ricos mas sim homens santos que desprezavam a riqueza.

Mais tarde, num painel lateral da Capela Sistina, Miguel Ângelo pintou o Juízo Final: a última palavra seria, afinal, de Deus. O Homem, ser belo e radioso, entregar-se-ia à fúria divina, devido à sua soberba, porque não soube viver a simplicidade do toque sagrado que lhe deu origem.


Talvez o homem devesse regressar à simplicidade, à beleza de um toque, ao amor sagrado e profano que esteve nas origens e deveria estar no seu destino; um simples toque… a alma e o corpo em dois dedos que se unem, sem tempo,
sem pecado… com amor…

Texto de Zeus



As cores têm este dom de nos despertar emoções e, ao mesmo tempo de as espelhar.
Uma mancha amarela; vigor, força, alegria, festa, vontade de viver. O querer no centro do ser; a vida em todo o seu esplendor.
Este amarelo desperta-me os sentidos, faz-me viver; é a cor do mundo, quase diria a cor de ser feliz.
Mas para lá desta alegria, desta energia que emana das vontades há um verde subjugado; derrotado, expulso. Talvez a paz perdida ou a tristeza renegada. A vida vence, a tristeza esvai-se.
Ao longe, como que projectado no espaço, o azul do céu; o desejo do infinito pairando muito acima da vida; talvez a alegria de ser e de viver só faça algum sentido se não perdermos de vista um infinito, bem visível e real ainda que distante.
A pintura de Kandinsky tem o imenso mérito de nos deixar sonhar; este quadro, o meu preferido do grande mestre russo, é fonte de energia; a a vida no centro do ser; é a derrota definitiva da tristeza.
"O renascimento da ordem"... :)
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Texto de Zeus



.Amarelo, Verde e Azul
Vassili Kandinsky
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Kandinsky (1866-1944) pintor russo, pioneiro Ocidental da pintura abstracta.
Nas suas obras, a alusão às formas geométricas é quase permanente, no entanto a contrastar com a rigidez destas, há também a mistura das formas moldavéis e flexíveis. O apelo à cor é uma constante na sua arte.
Influenciado pelas óperas de Richard Wagner, Kandinsky disse:"as cores são a chave, os olhos o machado, a alma é o piano com as cordas".
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(...reflexão...)
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Amarelo, Verde e Azul...
mergulho na confusão, nesta abstracção de cores e formas
parece que me afogo, que morro que me deixo ir...
mas há algo que me prende, que me segura, que me puxa para a vida...
olho em volta, vejo de outra forma as formas que me rodeiam e que desfilam sem parar...
que significado?
são luz, são vida, são o renascimento da ordem, do sentido, da "claridade"...




O Pensador é a principal obra do escultor francês Auguste Rodin. A obra original, em bronze, foi criada em tamanho reduzido em 1880, mas em 1904 Rodin decidiu ampliá-la para 1,80 m. A intenção inicial era representar Dante em frente dos portões do Inferno. Posteriormente, Rodin autorizou a produção de vinte réplicas da escultura.

O rigor técnico e a monumentalidade da obra são notáveis. Tecnicamente exprime a admiração que Rodin nutria por Miguel Ângelo. O próprio nu é entendido como um elemento de influência daquele génio do Renascimento.

Numa breve reflexão sobre o significado desta obra, é impossível escapar à pergunta: em que pensa o pensador? Aquela imagem de meditação profunda, aquela atitude de introspecção meditativa não apela, a meu ver, para o simples acto de raciocínio.

Talvez ele pense na natureza dos próprios pensamentos. Porque pensar é também um acto que advém da alma e não apenas da inteligência. Na verdade, pensar é muito mais que raciocinar. O cérebro pode escravizar e alienar o ser humano, tanto quanto a sua dimensão física.

Aquele que pensa eleva-se a um patamar muito acima do mundo físico e mesmo intelectual.
O pensador de Rodin está no extremo oposto ao homem físico, ao homem-músculo, primitivo e banal que vive no mundo vegetal da força bruta. No entanto, o Pensador eleva-se, ainda, acima do homem que pondera e calcula. Ele entrou no domínio da alma, o maior dos universos. Para lá do físico, para lá do cérebro está a alma, o espírito, a dimensão maior do Humano. O pensador de Rodin pensa e sente; talvez chore e ria; talvez o faça apenas dirigindo-se ao seu próprio interior. Porque a nudez do corpo nada diz sobre a imensidão do seu íntimo. A nudez exprime a dimensão estética; a reflexão explora toda a dimensão da alma.

Talvez hoje, mais de um século passado sobre a obra de Rodin, seja necessário pensar um pouco mais na inutilidade da dimensão física e na escravidão do raciocínio. Talvez o convite deste pensador seja o retorno ao universo imenso e encantador da alma; onde a poesia e a arte preenchem a espírito; onde o sentido da vida se resume ao verdadeiro sentir, ao mundo encantado mas profundamente humano das emoções e dos sentimentos; ao universo infinito onde se encontra a alegria, o amor e a felicidade.
Texto de Zeus



No fundo, o quadro é uma reflexão sobre a obsessão humana com a passagem do tempo e com a persistência da memória; os relógios deformados talvez nos queiram dizer que o tempo é o que nós fizermos dele. A entrada no século XX a que Dali assistiu foi uma época marcada pela inovação tecnológica, mas também por novas formas de diversão, novos meios de comunicação. Tudo isto conduziu o ser humano a um desejo cada vez mais premente de ocupar o tempo, vivendo com intensidade. Digamos que também na vida, não só na ciência, o tempo tornara-se relativo, maleável mas, ao mesmo tempo, um bem precioso que urgia usar com a máxima rentabilidade. Acentua-se assim a obsessão pelo tempo, pela necessidade de viver e, pior que tudo, acentua-se a angustia perante o tempo que foge, a vida que passa demasiado depressa. Dominar o tempo, controlar a sua impiedosa tirania torna-se uma quimera para o impotente ser humano.
A vida humana transformara-se num verdadeiro furacão, uma tempestade permanente que ocasionava cada vez mais desespero perante a impiedade do tempo. A modernidade passara a ser controlada pelo relógio: as tarefas quotidianas, o trabalho, o lazer, tudo é controlado e o homem vai acentuando a sua escravidão ao tempo. Os especialistas na matéria, os media, criaram a ideia de “optimização do tempo”. No entanto, esta ideia não obedece a qualquer atitude positiva perante o tempo mas apenas à tentativa de o usar da forma mais intensa possível. O tempo em si permanece incontrolável.
Mas, o que evoca realmente Salvador Dali quando nos apresenta o tempo desta forma? Talvez nos aponte a necessidade de relativizar o presente e evocar a memória: o passado, os tempos assassinados pelo presente, pela fúria da modernidade. Talvez esse tempo que já não existe seja o refúgio onde se encontra a paz: as memórias de infância, os sonhos que nos fizeram viver, as utopias que perseguíamos… talvez esta espécie de saudosismo seja um refugio da alma na sua tentativa de fuga ao presente…
O tempo é, no fundo, realidade subjectiva. Moldável, adaptável. Impiedoso, triunfa sobre a vida humana, mas o sonho é o caminho para o vencer. No entanto, por mais elaboradas que sejam as interpretações deste quadro, nada nos pode afastar deste confronto entre o real e o tempo, dando origem a um aspecto geral de decadência, uma espécie de paisagem de final de batalha. Tudo indica que não há vencedores na guerra entre a vida e o tempo.
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Texto de Zeus



O grande tema do quadro é o tempo, representado por relógios flácidos, indicando horas e minutos que são humanos e por isso moldáveis: os relógios marcam horas diferentes.
Ao fundo, uma paisagem sombria e infinita dominada por uma zona de luz, talvez uma praia ao amanhecer; talvez a mancha brilhante de um tempo indefinido, longe do presente, distante e ambíguo como o sonho. Talvez apenas as praias da Catalunha, sua casa; talvez apenas o realismo de um mundo que afinal existe, que, embora distante, escapa à tirania do tempo.
Os relógios escorregam como o tempo que flui. Um relógio fechado, coberto por formigas, animais frenéticos, que parecem devorá-lo; trata-se aqui da memória fechada, do tempo morto, devorado, abatido pela vida. Mas a formiga é também o animal da decomposição, da decadência; e o metal do tempo, mesmo que de ouro se trate, torna-se, também ele, vítima dessa decadência. Na zona central do quadro, um relógio que escorrega pelo dorso de uma criatura monstruosa onde se antevê o rosto do próprio Dali; o tempo sobreposto à vida; o tempo dominador implacável, tirano de vidas e seres. Um relógio pendente de uma árvore seca, talvez consumida pelo próprio tempo. E um relógio que escorrega de uma mesa, de uma aresta em ângulo recto, ângulo rigoroso como as horas que nos oprimem.
A ideia do quadro surgiu, segundo Dali, quando meditava sobre a natureza do queijo camembert. De facto, aqueles relógios são macios como o queijo e como o mundo quando sonhado, não vivido. Esta afirmação enquadra-se perfeitamente no espírito do pintor: homem de imaginação sem limites como é próprio de um grande criador. Por outro lado, essa imaginação confunde-se com a dimensão onírica da sua arte; o sonho deforma a realidade e até um queijo pode ser a imagem da solidão, da saudade ou da revolta. O sonho é, talvez, a maior expressão de liberdade do cérebro humano; nessa ocasião em que vagueia sem destino, a nossa mente liberta-se totalmente desse tempo definido e concreto a que chamamos presente.
As formas redondas conferem aos relógios uma simbologia sexual, principalmente o que se encontra ao centro a “cobrir” uma rocha ou um ser monstruoso e que simula o rosto do próprio autor. Esta conotação sensual transmite a ideia de relação entre o prazer e o tempo; o prazer como recusa da memória, como paragem no tempo ou como o seu elemento deformador; o prazer como elemento de eternização do presente.
Este tema relaciona-se também com a descoberta da teoria da relatividade, de Einstein, que ocorreu na época em que Dali pintou este quadro: os relógios deformados remetem para a relatividade do tempo; para a dimensão intemporal, em que o tempo “humano” é relativizado.Por outro lado, esta era a época de afirmação da psicanálise e de toda a teoria de Freud, que se debruçou sobre a sexualidade humana e a importância dos sonhos. Esta dimensão onírica é uma das pedras de toque de toda a pintura surrealista e de S. Dali em particular.A nível técnico destaque para a variedade e riqueza de pormenores, bem como para o realismo presente nos vários elementos do quadro.
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Texto de Zeus



Salvador Dali é, consensualmente, o mais perfeito representante do Surrealismo na pintura; este estilo, que obteve grande divulgação na primeira metade do século XX envolveu alguns outros grandes nomes da história da pintura, como Max Ernst e André Breton.
Este pequeno quadro (24/33 cm) datado de 1931, encontra-se no Museu de Arte Moderna (MOMA) de Nova Iorque e consta que foi executado em duas horas pelo grande mestre catalão, amigo pessoal de Pablo Picasso.
Na sua própria definição, Salvador Dali praticava, na sua pintura, o método paranóico-crítico, cultivando a auto-indução de uma espécie de alucinação psicótica. A realidade está para além do visível; só uma perspectiva paranóica poderia fazê-lo ultrapassar essas barreiras do visível. Assim, o real torna-se a verdadeira ilusão, dando origem a uma certa inversão lógica. Desta forma, só uma visão psicótica permitiria aceder a essa surrealidade, esse mundo mais puro e verdadeiro dos sonhos, das emoções livres e por isso mais profundamente humanas. O surrealismo de Dali baseia-se pois na deformação da realidade, tal como a observamos nos sonhos.
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Texto de Zeus



O “Arte Poética” volta em força depois de ter sido censurado e encerrado. Não sabemos o porquê do encerramento, parece que o blogger fecha os blogues sem ver o imenso trabalho que neles está depositado e também não dá explicações para o facto.
É verdade que dão a possibilidade da recuperação do blogue, mas não deixa de ser um transtorno na mesma.
Conseguimos recuperar a maior parte dos post, embora não os iremos colocar na totalidade, uma vez que um deles, pensamos nós, deu azo ao encerramento do referido blogue, nomeadamente o quadro de Gustave coubert "A Origem do Mundo"
Inevitavelmente, o “Arte Poética” surge com um novo look e agora não só dedicado às artes, mas a tudo o que “amamos” para além destas…



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